Trata-se de uma coleção familiar constituída de documentos textuais e iconográficos. Doada por Enzo Polydoro, pertencente à quinta geração, a coleção faz referência à família Polydoro, especialmente José Ferreira Polydoro (1854-1916), apontado como o primeiro grande palhaço brasileiro, e seus netos Guapyaba e Canaguary (avô de Enzo). O destaque inegável da coleção é o Diário de Polydoro, um dos mais importantes documentos do circo brasileiro, conhecido também como a “certidão de nascimento do circo no Brasil”, por guardar registros que permitem reconstituir o panorama circense nacional entre 1875 e 1916, ano da morte de Polydoro, com alguns registros posteriores, até 1946, com reportagens sobre a importância do palhaço no cenário circense.
O documento encerra dois volumes: um escrito à mão por Polydoro, e o outro, pela imprensa dos lugares por onde passaram os circos em que o mesmo atuou, visto reunir, em ordem cronológica, recortes de jornais a seu respeito; o que hoje é chamado de clipping - o clipping de Polydoro.
O diário escrito por Polydoro traz, em colunas, anotações referentes à movimentação do palhaço entre as diversas companhias circenses em que atuou em itinerância pelo Brasil e parte da América do Sul. As informações anotadas, ano a ano, praça a praça contém o nome dos circos em que Polydoro atuou, das cidades em que esses circos armaram suas lonas, a quantidade de espetáculos realizados em cada temporada, e o número de vezes em que ele, Polydoro, se apresentou, somando no final da vida, o total de 5.983 espetáculos. Polydoro também informa em seu diário as embarcações e estradas de ferro em que viajou e as datas e os locais de nascimento e morte de seus familiares.
Atualmente, a coleção, depois de passar por procedimentos de preservação, conservação e pesquisa, encontra-se:
classificada;
- parcialmente higienizada;
- parcialmente acondicionada;
- parcialmente catalogada;
- parcialmente digitalizada;
- pesquisa em andamento;
disponível para consulta presencial a partir dos procedimentos internos do CMC (link).
O acervo possui 104 documentos, nos formatos iconográficos e textuais.
O Diário de Polydoro inclui duas encadernações em capa dura, sendo que a primeira, com as anotações de Polydoro, soma 80 páginas em tamanho 17 x 21,5 cm. A segunda é um caderno de recortes de jornais que tratam do trabalho de Polydoro, publicados nos lugares por onde ele passou; tem 92 páginas, com 23 x 33 cm.
Há três álbuns fotográficos com registros de familiares de diversas gerações da família, entre eles os Irmãos Polydoro, que mantiveram circo - Adelita, Elia, Durval, Arnaldo, José, Saint Clair - cenas familiares, além de imagens do circo (externo e interno), números de espetáculos e trupes que atuaram nos circos Irmãos Polydoro, Universo, Fiíco, Apolo e Sudan, em turnês no interior de São Paulo, em Avaré, Sorocaba, Lins, Cambará, Presidente Prudente, Guarulhos, Tupã, Santos, Juiz de Fora (MG), Londrina (PR), entre outras cidades. Outras 30 fotos digitalizadas e avulsas trazem o registro de apresentações dos irmãos Guapyaba e Canaguary, este último também caracterizado como o palhaço Calhambeque. Há também uma série de documentos pessoais dos dois, carteira de identidade, documento funcional nos canais de televisão Excelsior e Bandeirantes, registro na censura etc. Ambos também predominam entre os 17 cartazes da coleção, grande parte referentes à atuação da dupla nos circos Norte-Americano, Águias Humanas e Gran Piccadilly.
O Diário de Polydoro foi escrito ao menos por duas pessoas da família: o próprio Polydoro, que redigiu o documento entre 1872 e 1916, ano que, em 2 de novembro, veio a falecer em Florianópolis (SC), e um(a) outro(a) integrante da família que continuou a redigir o diário, mantendo a mesma estrutura, fazendo as mesmas anotações, inclusive o valor que as companhias eventualmente ficaram devendo à família, até o ano de 1921.
O outro diário, o caderno de recortes, em sua primeira página, o registro de Guapyaba Polidoro, de 14 de julho de 1952, em que atesta ter reformado a coleção “com o fim único de melhorar e proteger melhor estes recortes de jornal”. Na sequência, há um termo manuscrito e assinado por dois dos filhos de Polydoro, Arnaldo e José Polydoro Filho, atestando a importância daqueles documentos para a família e relatando que os dois diários foram entregues a eles em 1946 pela irmã Adelita, após a sua morte, e que ambos transferiram a posse do documento a Guapyaba Polydoro, filho de Arnaldo. O registro data de 12 de janeiro de 1953. Tempos depois, este o transferiu para seu irmão Canaguary Polydoro, avô de Enzo Polydoro Ninzolli que foi quem trouxe o documento para o Centro de Memória do Circo..
O Diário de Polydoro também esteve nas mãos do pioneiro pesquisador do circo, Júlio Amaral de Oliveira na segunda metade do século XX, de modo que este serviu de fonte primária para suas pesquisas. Júlio Amaral de Oliveira passou a mencioná-lo em entrevistas e depoimentos com grande respeito histórico. Isso fez com que fosse denominado posteriormente como “a certidão de nascimento do circo brasileiro”. Amaral afirma não ter encontrado vestígios de um mestre de Polydoro, o que o torna o pioneiro na história dos palhaços brasileiros. Alice Viveiros de Castro, autora do livro O elogio da bobagem (2005), afirma nas páginas dedicadas a Polydoro, que o seu “detalhadíssimo diário” estava “misteriosamente desaparecido”. Por isso quando Ezo Polydoro Ninzolli se apresentou a Verônica Tamaoki, a primeira coisa que ela lhe perguntou foi se ele tinha notícias do famoso diário do seu tataravô. Enzo lhe respondeu que se fosse o que ele estava pensando, o diário estava na casa em que ele morava com o avô. Uma visita à família confirmou que o diário estava sob sua guarda. E o melhor: a família demonstrou interesse em passar o documento para a guarda do CMC.
Em 10 de dezembro de 2014, Dia do Palhaço, acompanhado por sua avó Eva Rivaroli Polydoro, Enzo transferiu a posse do precioso diário para o CMC, representado então por Roger Avanzi, o palhaço Picolino.
Em 2020 houve uma nova doação de Enzo Polydoro, incluindo acervo fotográfico digitalizado da família, além de documentos referentes à história do circo brasileiro. No mesmo ano, o CMC publicou o Diário de Polydoro em edição fac-similar, acompanhado de histórico, análises e artigos assinados pelos pesquisadores Alice Viveiros de Castro, Ermínia Silva, Mário Fernando Bolognesi e Walter de Sousa, em projeto coordenado por Verônica Tamaoki. A publicação é resultado da pesquisa mais completa realizada sobre uma família circense dentro do acervo do CMC, pois foram reconstituídos a linha do tempo, a genealogia da família e os itinerários percorridos pelo palhaço com os inúmeros circos em que atuou.
José Ferreira Polydoro | Adele Figueirôlla | Durval Polydoro | Família Polydoro | Canaguary Polydoro | Oscar Polydoro | Guapyaba Polydoro
CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da bobagem. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005.
LOPES, Daniel de Carvalho. SILVA, Erminia. Circos e palhaços no Rio de Janeiro: império. Rio de Janeiro: Grupo Off-Sina, 2015.
PONTES, Hugo. A Loja Maçônica “Estrela Caldense” e sua história 1895 a 1995. Poços de Caldas: Gráfica Universal, 1995.
SILVA, Ermínia. As Múltiplas Linguagens na Teatralidade Circense: Benjamim de Oliveira e o circo-teatro no Brasil no final do século XIX e início do XX. Tese Doutorado. Unicamp, Campinas, 2003.
SOUSA, Horacio. Cyclo Aureo: História do 1º centenário da cidade de Campos 1835-1935. Campos dos Goytacazes: Essentia, 2014.
TAMAOKI, Verônica. Centro de Memória do Circo. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 2017.
TAMAOKI, Verônica. O diário de Polydoro. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 2020.
TORRES, Antonio. O circo no Brasil. Rio de Janeiro-RJ: Funarte, 1998.