Ferenc Czeisler nasceu em Kategyhaza, na Hungria, em 29 de junho de 1916. Foi seu pai quem despertou nele as habilidades de magia, em brincadeiras infantis. No entanto, o pai faleceu quando Ferenc tinha somente 12 anos, o que o obrigou a procurar emprego pra ajudar nas despesas familiares. Conseguiu trabalhar num circo, como ajudante no trato com os animais. Em 1930, já adolescente, viajou para Montevideo, no Uruguai, com um tio, e, ao demonstrar alguma habilidade com os truques de mágica, passou a atuar como ajudante do mágico e faquir italiano Blacaman. Passou a usar o nome de Franz, apoiando o mestre nos números “O grande hipnotizador de animais” e “O cadáver vivo”. Depois de algum tempo juntando dinheiro, adquiriu os aparelhos necessários para apresentar seu próprio número de faquirismo.
Ao retornar à Hungria passou a se apresentar em praça pública e em parques de diversões, na ocasião como faquir Saranduja, acompanhado do palhaço Giovanni. Em 1935, aos 19 anos, casou-se com Ilonka Kovacs (1918-2000). Foi ela que insistiu para que abandonasse os números de faquirismo e investisse mais nos truques de magia, pois não se sentia confortável como esposa de faquir. A partir daí Franz deixou as ruas e criou números para se apresentar em locais fechados e com público mais seleto, adotando o nome pelo qual seria conhecido mundialmente: Tihany, o mesmo de uma vila húngara.
Na biografia publicada no site The scape act: holocaust memoir sobre o circo judeu, são destacadas duas qualidades essenciais de Franz Thiany Czeisler: “uma personalidade envolvente e um aguçado senso de espetáculo”. Isso o levou a criar números de grandes ilusões, realizadas tanto em palcos como em picadeiros. Thiany já havia conquistado um relativo nome no mundos dos espetáculos quando um grave episódio quase abreviou sua vida. Em 1942, ao se apresentar em Újvidék, na Sérvia, foi surpreendido por um plano de “limpeza partidária” promovida pelo governo local, o que envolveu a perseguição a sérvios dissidentes e judeus. Assim, sem que pudesse reagir, foi cercado por um pogrom (nome russo dado aos ataques públicos aos judeus) de 300 pessoas, e que o levou, junto de outras pessoas, às margens do rio Danúbio. Esse dramático episódio é assim narrado no livro Tihany, la magia de la vida:
“O olhar de Franz conseguiu adivinhar, na penumbra, que os soldados que acabavam de chegar ao final do cais em um caminhão coberto com uma lona desciam com metralhadoras nas mãos. Ele sentiu a tragédia que se abateu sobre aquelas existências atordoadas na neve. Ele, simuladamente, passou da fileira do meio, na qual havia sido colocado, para aquela que roçava a borda da plataforma que dava para a água. A lua aproveitou uma leve nuvem que caía sobre ela, para tapar os olhos e não ver o espetáculo de terror que se aproximava caminhando na neve. O silêncio da noite foi o primeiro a cair atordoado com as descargas monótonas das metralhadoras de manivelas, que, aproximando-se do centro do grupo pelas extremidades traseira e dianteira, encurralavam qualquer fuga. Os corpos desabaram silenciosamente na neve e pintaram-na de vermelho. (…) Franz tirou as botas e o casaco e pulou no rio. Sob a água congelada, ele arrancou depois as calças e começou a nadar até que avistou a silhueta de um iceberg negro flutuando na superfície. Atrás da rocha gelada, ele ergueu a cabeça para fora da água, respirou por um momento e submergiu novamente para nadar sob a superfície por um longo caminho até o próximo iceberg. O terror, a adrenalina e os seus 25 anos de músculos protegiam o pouco calor que a sua carne guardava. Repetidas vezes ele colocou a cabeça para fora para engolir um pouco de ar e várias vezes afundou na água. (…) Estava a trinta metros de tocar a margem da Iugoslávia quando a carícia de um remo roçou suas costas. Ele levantou a cabeça para fora da água e viu os braços que lhe ofereciam a vida.”
No final da Segunda Guerra Mundial, Tihany levou seus números de magia às tropas americanas que preparavam o retorno na Alemanha, Áustria e França. Em seguida, se juntou ao Circo Kratelj, na Romênia, e migrou para o recém-criado Estado de Israel, onde atou em teatros. Depois, seguiu para o Chipre e a Turquia, e, com o italiano Circo Coliseo, foi para a Áustria. Foi em Viena que conheceu o embaixador brasileiro que o convidou a atravessar novamente o Atlântico para conhecer o Brasil.
Chegou em São Paulo em 1953, acompanhado da esposa e do filho Ludwig, e logo seguiu com o Circo Garcia. Apenas um ano depois adquiriu um pequeno pavilhão usado pelo Politeama Marugán, um teatro de variedades. Imediatamente mudou o nome para Circo Mágico Tihany, apresentando sua magia e outros números de variedades. Inaugurado em 1954 em Jacareí (SP), obteve sucesso em curto prazo, o que possibilitou a aquisição de uma lona de última geração com capacidade maior de público. O espetáculo passou a conjugar apresentações circenses, de música e de cabaré. Criou o número que o caracterizou pelo resto da vida: a Dança das Águas, regidas pelo mágico, com jatos de água acionados por pistões de um tanque instalado sob o picadeiro. Outra atração era o corpo de baile da companhia – Tihany também era bailarino – além de sua triunfal entrada, algumas vezes pilotando um Rolls Royce, em outras num helicóptero que aparecia magicamente no picadeiro diante dos olhos do público!
O Circo Mágico Tyhani percorreu todo o país e expandiu suas apresentações para toda América do Sul e América Central. Atuou por 40 anos e estima-se que foi visto por 35 milhões de pessoas. Em 1984, Franz Tihany Czeisler baixou a lona em Sarasota, Flórida (EUA) e todo o equipamento foi vendido. Havia decidido se aposentar, transferindo-se para Las Vegas. No entanto, movido pelo mundo dos espetáculos da cidade, recomeçou o Circo Tihany do zero dois anos depois, no México, contratando como administrador o mágico ítalo-argentino Ricardo Massone, também escolhido para ser seu substituto. Decidiu percorrer os Estados Unidos mas, percebendo a dificuldade logística do território, retomou as turnês pela América do Sul. Assim foi até 2010, quando vendeu o circo à produtora mexicana Showtime, que manteve seu nome e o gestor.
Em 2007 passou a fazer parte do Circus Ring of Fame, no St. Armands Circle, em Sarasota, Flórida, Foi nomeado Embaixador do Circo pela Fédération Mondiale du Cirque (Federação Mundial de Circo), em 2009, entidade presidida pela Princesa Stéphanie de Mônaco. Ainda em 2009 recebeu um doutorado honorário da Universidade de Puebla, no México, por suas contribuições à arte circense. Em 2015 foi designado como “Embaixador Internacional das Artes” pelo Parlamento Húngaro. Foi também membro vitalício do Magic Castle, em Hollywood, e recebeu as chaves das cidades de São Paulo e Las Vegas.
Em 2 de março de 2016 em Las Vegas, há dois anos de completar seu centenário, morreu o Rei dos Ladrões, título que usou desde o início da carreira, quando fazia números de close-up, subtraindo objetos da plateia sem que notassem. Em 2009 Tihany esteve no Centro de Memória do Circo, num evento do Circo Garcia, em que foi saudado pelos circenses
29/06/1916
02/03/2016