Adelino João da Silva, o Silki, nasceu em 1919, em Taquara (RS). Aos 11 anos fugiu com o Circo Norte-Americano, onde conheceu o faquir hindu Silki, com quem aprendeu a arte do faquirismo. Antes, porém, devido à pouca idade, trabalhou como faz-tudo no circo. No seu processo de aprendizagem passou pela prova de fogo ao ser enterrado vivo por 1h30. Com a morte do tutor, num acidente com a carreta do circo, herdou seu nome e pertences. Dizia que engolir espadas e fogo eram coisas de principiante – e que fazia aos 14 anos –, por isso optou pelo jejum. Seguiu no Circo Nova Irmãos, depois atuou no Teatro de Variedades e em Recife, em 1949, sem dinheiro e sem circo, decidiu fazer a prova que batizou como “Domínio sobre o sol”: deitado, passou do nascente ao poente olhando para o sol, com transmissão radiofônica durante todo o tempo e patrocinado por empresas do comércio local.
Daí em diante optou pelo jejum, ou, como definia, pelo “domínio do corpo pela mente”. Fez números em que era crucificado e passava noites sem dormir. Muitas vezes tinha a barriga perfurada por uma espada, além de se apresentar numa urna de vidro cercado de cobras.
Seus números alcançaram sucesso a ponto de o convidarem para uma turnê em Cuba, México e Estados Unidos, que teve de desistir ao ter sua valise com documentos furtada no aeroporto. Decidiu, então deixar o Rio Grande do Sul para se arriscar em outras praças.
Em 1955 iniciou um jejum planejado para durar 93 dias, mas como o faquir francês Burmah, conseguira ficar 99 dias sem comer, Silki estendeu seu jejum para 100 dias, e conquistou o título mundial de faquirismo. Tempos depois, Burnah alcançou a marca de 105 dias em jejum, destronando Silk que, em 1957, superou novamente o rival ficando 107 dias sem comer, deitado numa cama de pregos, rodeado por serpentes, no Largo do Paissandu. Dez anos depois Burmah tomou a dianteira com jejum de 110 dias, mas em 1969 Silki alcançou a marca de 111 dias e tornou-se Tricampeão Mundial de Faquirismo. Ele conta que pouco antes de alcançar o recorde um grupo de gastrônomos se reuniu ao redor da urna em que estava e devorou 250 quilos de comida, sempre comentando sobre os sabores que experimentavam.
Em 1980, novamente no Largo do Paissandu, Silki despediu-se do faquirismo ficando 115 dias sem comer. E dedicou seu último jejum a Burnah que havia falecido em 1978.
Como faquir adquiriu fama dentro e fora do país, tendo se apresentado em provas de jejum nas cdades: Caxias do Sul, Porto Alegre, Bagé, Santa Maria, Uruguaiana, Pelotas, Jaguarão, Passo Fundo, Santana do Livramento e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul; Curitiba (PR); Porto União e União da Vitória (SC); São Paulo e Santos (SP); Belo Horizonte, Pouso Alegre, Itajubá, Juiz de Fora e Cachoeira do Sul, em Minas Gerais; Salvador (BA); Recife (PE); Rio de Janeiro e Niterói (RJ). Fora do país realizou as mesmas provas no Uruguai (Salto e Mello); Colômbia (Bogotá, Cali e Nébia), Venezuela (Caracas) e Paraguai (Assunção e interior). Fez apresentações em canais de televisão na França e na Itália. Se apresentou em mais de 200 cidades em circos e teatros. Silki morreu em 1998. Teve dois filhos, diversas esposas, e milhares de fãs.
Inspirado em suas performances, Maurice Capovilla dirigiu o filme O profeta da fome (1970), com José Mojica Marins, o Zé do Caixão, no papel de faquir. A Rede Globo produziu em 1983 o documentário O fabuloso Silki, dirigido por Atílio Riccó e Walter Avancini. A diretora Helena Ignez produziu em 2019 o documentário Fakir, em que reúne imagens sobre o faquirismo a partir de suas reminiscências de infância, quando viu Silki em Salvador (BA).
Adelino João da Silva
1919
1998