A ABED/ABRACIRCO é o resultado histórico de uma trajetória de entidades da classe circense que se inicia em 1925 com a Federação Circense, seguindo com a criação do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo (SATED) em 1934 como parte da política de Getúlio Vargas de sindicalização das categorias dos trabalhadores e, em 1937, pela Casa do Ator, criada para abrigar artistas circenses e teatrais na velhice. A pioneira Federação Circense foi dissolvida em 1938 e retomada em 1961 por Aldny Faya. Outras entidades se seguiram, entre elas a Associação Brasileira de Proprietários de Circos e Empresários de Diversões, que depois passou a se chamar Associação Profissional Circense, criada em 1943 por Paulo Seyssel (1904-1992), irmão de Waldemar Seyssel, o palhaço Arrelia e filho de Ferdinando Seyssel, o palhaço Pinga-Pulha. O mesmo será um dos fundadores, enfim, da ABED, em reunião realizada a 13 de abril de 1977 na sede da Ordem dos Músicos do Brasil, localizada no Largo do Paissandu. A associação tinha o objetivo de “representar os interesses da atividade circense em geral”, como especifica o seu estatuto. Seyssel foi seu primeiro presidente, mas a figura de frente da entidade foi o vice-presidente José Gigliotti Novaes (1923-1995), empresário de circo e de diversões, que conduziu a entidade desde a fundação até o seu falecimento, em 1995. Participaram da primeira diretoria, além de Seyssel (presidente) e Novaes (vice-presidente), Arlindo Alves (1o. secretário), Antonio Baldira (2o. secretário), Paulo Bruno Meyer (1o. tesoureiro) e Arlindo Lamas (2o. tesoureiro).
A sede da associação foi instalada no número 51 do Largo do Paissandu, e depois para o segundo andar do prédio de número 377 da Rua Dom José de Barros, ambos em meio ao burburinho do Café dos Artistas, tradicional ponto de encontro dos artistas circenses.
Também passaram pela presidência da ABED: Milton Fabri (1992-1995), acrobata, trapezista, paradista e perchista; José Vitor Kidy Galvão (1995-1996), editor do Jornal Artes e Diversões; e Carlos Fernandes, palhaço Dengoso e empresário circense (1997-2000). Sayonara Power, empresária circense (2001-2005) fez a passagem para a ABRAC e José Wilson Moura Leite (2005-2009), fundador do Circo Escola Picadeiro e empresário circense, por sua vez, para a ABRACIRCO. Seguiram-se na presidência Camilo Torres (2010-2016), ator e palhaço; e novamente José Wilson (2017-2021).
Entre o final de 2024 e meados de 2025 o Programa Sou de Circo fez a análise das fichas cadastrais da ABED referentes ao período de 1977 a 2000. Foram analisadas 2.365 fichas das 4.427, pois 2.062 fichas são duplicações de fichas originais (continuações das originais ou nova filiação de associado). Essas fichas deram um panorama histórico da composição da classe circense no final do século XX. A seguir, alguns dos resultados da pesquisa quantitativa dessa base primária de dados.
A predominância de associados é masculina (63,9%) em detrimento da participação feminina (35,9%), além do registro de três artistas autodefinidos como transformistas ou atriz forfait. Embora todos os associados fossem contribuintes, o campo na ficha destinado a essa distinção (categoria) nem sempre foi preenchido detalhadamente (54,7% aparecem somente como “contribuinte”). É provável que essa fração se refira aos artistas. A fatia de empresários soma 35,7%, e outros 8,4% são apontados como “empresário fundador”.
A entidade tem 52,4% de seus associados nascidos em São Paulo. Outros Estados predominantes são Minas Gerais (8,9%), Paraná (7,8%) e Bahia (4,9%). Há uma fatia de 8% de estrangeiros, sendo a maior parte de argentinos (92), uruguaios (36), chilenos (29), peruanos (15) e colombianos (14).
Quase metade das fichas analisadas (49,4%) não dispõem do campo “grau de instrução”, mas foi possível verificar que 33,1% cumpriram o 1o. Grau, 12,9% o 2o. Grau, 4,3% o superior e 0,13% se declararam analfabetos.
Os dados raciais foram analisados inicialmente pela autodeclaração – ressalvando que não há como confirmar se foram declarados ou “interpretados” por uma terceira pessoa – e realizada uma heteroidentificação (avaliação do fenótipo para definição da raça) usando os mesmos critérios do empregados pelo IBGE no Censo a partir das fotografias constantes nas fichas cadastrais, mesmo que 7,1% de fichas não dispusessem da fotografia 3x4 presente na maioria do conjunto. Assim, na autodeclaração 61,7% aparecem como brancos e 9,8% como claros (total de 71,5%); 16,8% morenos, 4,6% morenos claros, 1,8% pardos, 1,5% negros, 0,7% e 0,3% morenos escuros (total de 25,7%).
Na heteroidentificação, 6,7% das fichas estavam sem foto, o que inviabilizou o processo. No restante, a parcela de brancos somou 56,3% e 9% claros (total de 65,3%); 15,3% morenos, 4,2% morenos claros, 1,5% pardos, 1,3% negros, 0,5% pretos e 0,3% morenos claros (total de 23,1%); além de 0,18% de indígenas.
Com relação às profissões listadas pelos associados, muitos deles informaram mais de uma habilidade circense. No entanto, aparecem frações genéricas: 5,5% são descritos como “artista circense” e 4,3% como “artista”. As profissões com maior incidência são: bailarino/a (12,4%), palhaço/a (5,9%), dançarino (4,9%), ator/atriz (2,2%), mágico/a (2%), cantor (1,7%), outros, ou seja, atividades com menos de 1% de incidência (42,2%). Com relação aos empresários aparecem os “de diversões” (16,1%), e somente “empresário” (2,8%).
A análise quantitativa das fichas aponta a presença de uma diversidade de raça, sexo e profissão entre empresários e artistas que muitas vezes escapa às narrativas históricas e mesmo memorialísticas do circo, que identificam geralmente a predominância de homens brancos, e, em geral, de famílias originárias de países europeus na atividade circense. Há entre as fichas, por exemplo, o registro de palhaças negras e brancas, empresárias e artistas transformistas atuantes desde a década de 1970.