Coração do Centro de Memória do Circo – CMC, o acervo antecede a própria instituição, fundada em 2009. Na verdade, o CMC foi criado em função do acervo que se constituiu, em 2006, da junção das coleções Circo Garcia, (1928-2002), Circo Nerino (1913-1964) e da artista e pesquisadora circense Verônica Tamaoki. O acervo inicial foi acrescido de outras coleções, vindas principalmente do circo, como as das família Pereira e Seyssel, do mágico Fu Li Chang, do colecionador Júlio Amaral de Oliveira (em comodato com o MIS-SP), entre outras.
Atualmente o acervo abriga diversas coleções que somam cerca de 80 mil documentos de vários formatos e suportes, distribuídos em espaços dedicados e climatizados, o que garante tratamento museológico. O Acervo subsidia a Pesquisa, que transforma o registro histórico em conhecimento sobre a memória do circo. E, ao fim do ciclo, esse conhecimento é difundido ao grande público a partir de um processo que envolve exposições, publicações, palestras, incluindo dossiê de cada uma de suas coleções contendo apresentação, descrição, histórico, biografias e referências.
* APRESENTAÇÃO DO ACERVO *
O acervo do CMC é um acervo híbrido, com características tanto arquivísticas, como museológicas e bibliográficas. Ele se organiza em Coleções, e estas a partir de Seções. As Coleções são agrupamentos de documentos que podem ser relacionados aos circos (como a do Circo Nerino), às famílias (como a da Família Queirolo), aos artistas (como a do Mestre Maranhão), aos grupos (como a do La Mínima) e às associações de classe (como a da Abracirco). Dentro das coleções há as Seções, que representam a proveniência dos documentos (como a Seção MASP, da coleção Família Pinto, e a Seção Pururuca, da Coleção Família Queirolo).
As coleções são disponibilizadas em três níveis de acesso. No nível I encontram-se os documentos mais representativos; no nível II, documentos com potencial para pesquisa e estudo; e no nível III, documentos em mau estado de conservação, repetidos etc. Além das exposições, publicações, audiovisuais, e site eletrônico, o acervo é disponibilizado por meio de visitas às Reservas Técnicas e de consultas previamente agendadas.
Os documentos do acervo foram a princípio classificados conforme o seu formato e suporte. Por exemplo: documentos textuais, iconográficos, tridimensionais e audiovisuais. Com o tempo, acrescentou-se à classificação desses grandes grupos, informações sobre o conteúdo dos mesmos, e uma outra classificação, que ainda se encontra em processo, construída sob o ponto de vista da produção circense, que resultou na identificação de dois grupos distintos assim definidos: um de documentos produzidos (em sua maioria pelos próprios circenses) para o exercício da profissão (aparelhos, figurinos, partituras musicais, peças de circo-teatro, cartazes etc.); e outro para o registro da história (fotografias, diários, clippings etc.).
* Espaços *
Para a guarda do seu acervo, o CMC dispõe dos seguintes espaços:
Reserva Técnica I (sobreloja) – Sala de guarda para documentos textuais, iconográficos, fonográficos e audiovisuais, assim como hemeroteca, biblioteca, filmoteca e discoteca.
Reserva Técnica II (1º andar) – Sala de guarda para documentos tridimensionais, aparelhos circenses e indumentárias.
Reserva de Quarentena (sobreloja) – Sala de guarda para documentos que acabaram de chegar na instituição e que ainda não passaram pelo tratamento técnico de conservação, ou que ainda estão em período de observação.
Ateliê Tabajara Pimenta – Oficina equipada com ferramentas necessárias para o processo de tratamento dos documentos, instalada numa imensa vitrine na Galeria Olido.
O acesso a essas salas é restrito às funcionárias do CMC por questões ambientais, sendo realizadas visitas mediadas perante agendamento prévio.
* Tratamento técnico *
Todo documento passa por um processo de tratamento técnico que começa com a sua entrada na instituição e passa pelas seguintes etapas:
Aquisição – Momento em que o CMC adquire o documento, podendo ser por doação, compra, comodato ou troca. Essa etapa é regida pelas Políticas de Aquisição e Descarte, que orientaram o que é adequado à missão institucional do CMC. Ao entrar em um museu, o objeto perde o seu caráter cotidiano e se transforma em um documento museológico.
Higienização – Consiste na limpeza mecânica e superficial do documento para retirada de sujidades, avaliando seu estado de conservação.
Catalogação – Ao mesmo tempo da higienização o documento é catalogado a partir das características intrínsecas, ou seja, informações invariáveis, obtidas do próprio documento. Já a compilação das características extrínsecas, ou seja, as informações variáveis, obtidas de fontes externas, andam em paralelo com a pesquisa. Para o registro padronizado das informações, foi feita a ficha catalográfica.
* DESCRIÇÃO DO ACERVO *
O acervo do CMC soma 80 mil itens, em suportes distintos, entre eles documentos textuais, como os textos das peças de circo-teatro e coleções de recortes de jornais com as trajetórias de carreira de circos e artistas; iconográficos, como cartazes e fotos históricas das companhias circenses; tridimensionais, entre eles aparelhos circenses, incluindo os usados pelo mágico, as claves do malabarista, além de maquetes de circo; audiovisuais, com filmes e registros de imagens; fonográficos e musicais, entre eles discos, fitas e CDs, além de instrumentos musicais; e as indumentárias de palhaços, mágicos, malabaristas e figurinos de circo-teatro.
Constituído por conteúdos riquíssimos e únicos sobre circos, artistas e artes circenses, o acervo é também organizado conforme uma classificação desenvolvida dentro dos princípios museológicos adaptados à realidade do circo brasileiro. Esse trabalho vem sendo desenvolvido há década e meia pela equipe do CMC de modo pioneiro, e ajustado continuamente. Conheça, a seguir, as coleções do acervo.
* Coleções Publicadas *
ASSOCIAÇÕES DA CLASSE CIRCENSE
Associação Brasileira de Espetáculos de Diversões/ Associação Brasileira de Circo
CIRCOS
Circo Garcia
Circo Nerino
Circo Teatro Irmãos Almeida
Circo Spacial
Circo La Tarumba
COLECIONADORES/PESQUISADORES
Júlio Amaral de Oliveira ( em comodato com MIS)
Verônica Tamaoki
FAMÍLIAS CIRCENSES
Família Mello
Família Pinto
Família Temperani
Família Campelo
GRUPOS
La Mínima
Parlapatões
MAQUETES
Joinha
Maranhão
ARTISTAS
PARADISTAS
José Américo e Vick
Milton Fabri
MÁGICOS
Estercita e Dossel
Tihany
FAQUIRES
VENTRÍLOQUOS
Landão
Yorga
PALHAÇOS/AS
Yasmim – Lily Curcio
Pepin e Florcita
Romiseta
Reco-Reco
APRESENTADORES/AS
Ary Rabelo
Madame Lyson
MALABARISTAS
Bruno Edson
Irmãos Pereira
Ivan Alvarado Alvarado
SECRETÁRIOS
Antonio Gimenez
CIRCO-TEATRO
Chrysóstomo Pinheiro de Faria
* HISTÓRICO DO ACERVO *
A constituição do acervo do Centro de Memória do Circo (CMC) começou antes mesmo da fundação da instituição. Na verdade, a existência de um conjunto documental bastante significativo sobre o circo brasileiro, formado a partir da junção das coleções do Circo Nerino (1913-1964), do Circo Garcia (1928-2003), em 2006, que motivou a criação da instituição.
No início, o acervo do CMC se caracterizou principalmente como um acervo arquivístico, mas com a chegada de novas coleções com documentos tridimensionais ─ indumentárias, como o figurino do palhaço Torresmo; aparelhos circenses como a espada do engolidor Yorga; e o boneco Benedito, do ventríloquo Landão ─, o hibridismo do acervo foi acentuado.
Os primeiros conjuntos documentais sobre o circo a serem incorporados pelo acervo do CMC, após sua inauguração, vieram das famílias Pinto (dos palhaços Piolin e Figurinha), Seyssel (dos palhaços Arrelia e Pimentinha), Pereira (dos palhaços Alcibíades e Fuzarca), Queirolo (dos palhaços Torresmo e Pururuca), e do faquir Silki, localizadas pela pesquisa Largo do Paissandu, onde o circo se encontra, realizada em 2008 pela produtora Pindorama Circus. Na sequência, foram incorporados os conjuntos pertencentes às famílias Mello, Temperani, à associação da classe circense Abracirco, do ilusionista Fu Li Chang e do Circo Teatro Irmãos Almeida.
O CMC também incorporou ao seu acervo conjuntos reunidos por outras instituições culturais, como a Coleção Júlio Amaral de Oliveira ─ um dos mais importantes pesquisadores e colecionadores do circo brasileiro ─, proveniente do Museu de Imagem e Som de São Paulo (MIS-SP), em sistema de comodato; e o conjunto de indumentárias do palhaço Piolin, que se encontrava no Museu de Arte de São Paulo (MASP), desde 1972, e que foi doado ao CMC em 2016. Neste mesmo ano, a coleção Circo Garcia foi reconhecida pelo Programa Memória do Mundo da UNESCO, a primeira relacionada ao circo na história da premiação.
Importante ressaltar que a maioria das coleções são oriundas da comunidade circense. Os documentos foram reunidos, organizados e preservados pela própria comunidade, que muitas vezes é responsável também pela produção desses documentos, seja para o exercício da profissão, seja para o registro da memória. Muito se deve aos memorialistas circenses que registraram a grande aventura do circo em terras brasileiras, fotografando, filmando, reunindo o que a imprensa noticiava, colhendo depoimentos, escrevendo diários. A dívida é grande também com a trupe de arquivistas, responsáveis pela montagem de álbuns de fotografias, de partituras musicais, de peças teatrais e clippings. Assim como com os artesãos circenses que confeccionaram figurinos, aparelhos, cartazes, tabuletas, truques e traquitanas que se encontram hoje no acervo do CMC. Não se pode esquecer ainda daqueles que preservaram esses documentos, ação para a qual a comunidade circense dispôs de até cinco gerações, permitindo a preservação de documentos do século XIX, entre eles o cinturão de Joanita Pereira (1868) e o Diário de Polydoro (1870-1921). É possível imaginar as adversidades pelas quais passaram esses documentos para sobreviver à poeira da estrada, à fuligem do trem, à maresia, à água e ao fogo e, principalmente, à passagem do tempo.